Passada as festas carnavalescas entramos na quaresma, um tempo de preparação para a Páscoa, e se começa uma caminhada quaresmal impondo na testa uma porção de cinzas, querendo significar uma transitoriedade. Este rito quer justamente mostrar que somos passageiros, viemos do pó e para lá retornaremos após a morte. Também quer nos lembrar que a quaresma é tempo de penitência em busca de uma transformação de vida. Por fim, a cruz traçada na fronte simboliza que por ela Cristo venceu a morte e por ela temos vida, ou seja, de onde veio um dia a morte agora vem a vida. Esta espiritualidade, assim constituída, nos leva a partir deste momento a três atitudes fundamentais: a oração, o jejum e a esmola.
Por meio da oração se procura vencer a tentação do poder e reconhecer o senhorio de Deus e a nossa condição de criaturas, que de Deus saímos e a Deus retornamos. O jejum é para vencer a tentação do prazer e buscar um autodomínio, a fim de sermos verdadeiramente livres e senhores de nós mesmos. Enganam-se os que pensam que jejum é deixar de comer e beber. Jejum é uma forma de renúncia voluntária por amor a Deus. A esmola é para vencermos a tentação do ter. Ofertarmos um pouco do que possuímos para que, repartindo o que temos, outros possam viver melhor.
Igualmente começa após a Quarta-feira de Cinzas a Campanha da Fraternidade 2010, já tão tradicional entre todos, e que neste ano destaca e tem como tema a “Fraternidade e os bens materiais” e o lema “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24 ). Durante as cinco semanas da quaresma, juntamente com outras comunidades cristãs, procuraremos refletir sobre a centralidade da pessoa humana no projeto salvífico de Deus e a importância do uso dos bens materiais em favor delas, pois tudo está a serviço do ser humano.
No Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor ocorre a grande manifestação de solidariedade, em que repartimos entre irmãos o muito que recebemos de Deus e queremos colocar a serviço de todos para o bem de cada um. É a grande coleta da Fraternidade, que nos dispõe a começar a semana do cristão, que é a Semana Santa. Finalmente na Páscoa do Senhor abrimos nosso coração para a transformação, e deixamos de lado um coração de pedra, assumindo um coração de carne capaz de amar. Quaresma e Campanha da Fraternidade de mãos dadas nos conduzem a uma autêntica mudança de vida para que a tenhamos em plenitude.
*PADRE, DIRETOR DA FACULDADE DE TEOLOGIA DA PUCRS
Jornal Zero Hora — Porto Alegre — 18/02/2010



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