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Evangelho Comentado (Mt 16, 13-19) – S. Pedro e S. Paulo – 29/06/2008

A missão de quem reconhece Jesus

O texto de hoje pertence a uma seção maior, que provavelmente se prolonga até o v. 28. É dentro desse contexto que Pedro recebe a revelação de que Jesus é o Messias. Contudo, o que Pedro vê em Jesus não é fruto de especulação, pois Jesus é o Messias plenamente humano, a ponto de enfrentar a morte. Pedro, pedra sobre a qual Jesus edificará a sua Igreja, torna-se pedra de tropeço (Satanás), porque não pensa as coisas de Deus; ao contrário, está agarrado à mentalidade da sociedade estabelecida, que espera um Messias glorioso e poderoso e, por isso mesmo, rejeitará Jesus, levando-o à morte (vv. 21-23). A seguir, Jesus mostra as conseqüências para quem reconhece que ele é o Messias (vv. 24-28). Em síntese, o reconhecimento de Jesus-Messias conduz ao testemunho e à cruz. O processo de Pedro é um processo de conversão que o leva a identificar sua vida com a do Mestre. O grande desafio é este: deixar de querer um Messias feito à nossa imagem e semelhança para nos tornarmos discípulos à imagem e semelhança de Jesus, Messias-servo (veja I leitura).

a. Quem é Jesus? (vv. 13-16)

Jesus e os discípulos estão no território de Cesaréia de Filipe, região habitada por pagãos. Ela recorda o início da atividade de Jesus e seu objetivo primeiro (cf. 4,12-17). Jesus leva seus discípulos para longe de Jerusalém, o centro do poder político, econômico e ideológico. Cesaréia de Filipe é uma espécie de “periferia” e terra que espera um anúncio qualificado acerca de quem é Jesus. É a partir dessa realidade, longe da influên-cia ideológica do centro, que os discípulos são estimulados a dar uma resposta plena sobre quem é Jesus. Grave pergunta: será que nós poderemos dizer plenamente quem é Jesus se estivermos comprometidos com os centros de poder?

O episódio tem dois momentos. No primeiro, Jesus pergunta aos discípulos o que as pessoas dizem a respeito dele (v. 13). A resposta revela a diversidade de opiniões, todas insuficientes para responder à pergunta: “Quem é Jesus?” Ele é visto como simples precursor dos tempos messiânicos. Percebe-se que circula na sociedade uma imagem distorcida de Jesus, exatamente por causa de sua humanidade. Ele se apresenta como “Filho do Homem”, título que o situa no chão da vida de todos os mortais: ele é carne e osso como qualquer de nós. E justamente por isso é que começam as distorções: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros, ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas” (v. 14). De acordo com essas opiniões – certamente importantes –, Jesus não ultrapassa a barreira do velho, pois está simplesmente inserido na tradição profética.

No segundo momento, Jesus interpela diretamente os discípulos que haviam visto sua luta para implantar a justiça do Reino: “Para vocês, quem sou eu?” (v. 15). A resposta de Pedro mostra quem é Jesus: o Messias (Cristo), o Filho do Deus vivo (v. 16). Essa resposta é um dos pontos altos do Evangelho de Mateus, cuja preocupação é apresentar Jesus como o Emanuel (= Deus conosco) e o Salvador (Jesus = Deus salva; cf. 1,25). Jesus é a realização das expectativas messiânicas, o portador da justiça que cria sociedade e história novas. Ele supera, portanto, a barreira do velho e introduz a novidade.

b. A comunidade nasce do reconhecimento de quem é Jesus (vv. 17-18)

Reconhecer Jesus desse modo é ser bem-aventurado, porque assim o cristão mergulha no projeto de Deus realizado em Jesus (v. 17). Ninguém chega a entender “quem é Jesus” a não ser mediante o compromisso com suas propostas (a justiça do Reino), que são as mesmas do Pai.

O reconhecimento de Jesus não é fruto de especulação ou de teorias sobre ele, e sim de vivência do seu projeto (prática da justiça). É com pessoas que o confessam, como Pedro, que nasce a comunidade (v. 18a). Essa confissão é forte como a rocha. No entanto, não é fácil confessar. Jesus mostra que a comunidade cresce e adquire corpo em meio aos conflitos (as portas do inferno ou “o poder da morte”), nos quais forças hostis procuram derrubar o projeto de Deus.

Jesus confia grande responsabilidade de liderança a quem o confessa por Messias. Qual é a função dessa liderança? Em primeiro lugar, conservar, em meio aos conflitos decorrentes da prática da justiça, a firme convicção de que o projeto de Deus vai triunfar (o poder da morte – a injustiça – não vai vencer). A primeira função do líder é, pois, manter de pé a esperança da comunidade em torno da justiça que inaugura o Reino. E isso, evidentemente, não se faz só com palavras. Em segundo lugar, mediante o contínuo processo de conversão-confissão, testemunhar que a salvação e a vida provêm de Deus. O aspecto da conversão está bem demonstrado nos vv. 21-23, em que Jesus mostra como realiza seu messianismo, por meio do sofrimento, da rejeição e da morte, ou seja, enfrentando o centro do poder que mantém a injustiça causadora da morte do povo; e Pedro, antes pedra de edificação, torna-se Satanás, pois propõe um messianismo alternativo, já rejeitado por Jesus no episódio das tentações (cf. 4,1-11, especialmente os vv. 5-6). A conversão de Pedro (e dos cristãos) consiste na conversão ao Cristo que sofre, é rejeitado e morre por causa de sua luta pela justiça do Reino. Confessar é aderir a ele, com todas as conseqüências que o testemunho acarreta. Simão Pedro – e com ele a maioria das pessoas – gostaria que Jesus fosse do jeito que ele quer. O Mestre não é do jeito que nós imaginamos. Mais ainda, pelo fato de ser o Mestre, quer que nós sejamos do jeito que ele é.

c. O projeto de Deus continua na comunidade (v. 19)

Jesus realiza o projeto de Deus (é o Messias) num contexto de conflitos e violência, passando pela morte e vencendo-a. Seu messianismo é uma luta constante em favor da justiça do Reino e contra as injustiças que promovem a morte. E o cristianismo, o que é? É o prolongamento da ação de Cristo que promove a justiça e a torna possível. O poder de Jesus é um poder que comunica vida. Sua prática o demonstra. Seu nome o comprova. Ora, ele quer como seus colaboradores aqueles que estão dispostos a confessá-lo, pois com base nesse testemunho é que nasce a comunidade de Cristo (“construirei a minha Igreja”). Jesus faz suas testemunhas participarem do seu poder de vida (“darei as chaves do reino do céu”).

Os projetos de morte têm poder, mas é um poder relativo. A comunidade de testemunhas do Cristo, por seu lado, também possui poder, que é o mesmo do Cristo. Quando o testemunho cristão é pleno, é o próprio Jesus quem age na comunidade, permitindo-lhe ligar e desligar. Contudo, a comunidade não é proprietária do poder de Jesus. É ele quem construirá e dará do que é seu. A comunidade administra esse poder mediante o testemunho que ela vive e anuncia. Assim agindo, demonstra quem é a favor e quem é contra Jesus.

O texto fala de Pedro e de sua liderança na comunidade. Qual é a função dessa liderança? É ser o ponto de união da comunidade que Cristo edificou com sua vida, morte e ressurreição. É organizá-la para que seja a continuadora do projeto de Deus. É ser alguém que – à luz da prática do Mestre – leva a comunidade ao discernimento e à aceitação daquilo que promove a vida e à rejeição de tudo o que patrocina e provoca a morte.

Fonte: Vida Pastoral

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