Durante a Quaresma a Igreja nos lembra que a nossa vida é um caminho rumo à Páscoa, ocasião em que Jesus, com a sua morte e ressurreição, nos introduz na verdadeira vida, preparando-nos para o encontro com Deus. Um caminho que não é isento de dificuldades e de provações, comparável a uma travessia do deserto.

Foi justamente no deserto que o povo de Israel, enquanto se encaminhava para a terra prometida, abandonou por um momento o seu Deus e adorou o bezerro de ouro.

Também Jesus esteve no deserto durante quarenta dias e também Ele foi tentado por Satanás a adorar o sucesso e o poder; mas rompeu radicalmente com toda bajulação do mal e se orientou com decisão ao Único Bem:
“Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto.”

O que aconteceu com o povo judeu e com Jesus acontece também conosco, no nosso dia-a-dia. Não faltam as tentações de nos desviarmos por caminhos mais fáceis: somos tentados a procurar a nossa alegria e a depositar a nossa segurança na eficiência, na beleza, no divertimento, na posse, no poder…, realidades que, em si, são positivas, mas que podem ser absolutizadas e que a sociedade muitas vezes propõe como verdadeiros ídolos.

E quando não se reconhece e não se adora Deus, inevitavelmente aparecem outros “deuses”. Basta ver quantas pessoas recorrem ao culto da astrologia, da magia etc.

Jesus nos lembra que nós alcançamos a plenitude do nosso ser não buscando essas coisas que passam, mas nos colocando diante de Deus, do qual tudo provém, e reconhecendo-o por aquilo que Ele realmente é: o Criador, o Senhor da história, o nosso Tudo, Deus!

Se é verdade que o louvaremos sem cessar no Céu, para onde caminhamos, por que não podemos antecipar desde já o nosso louvor a Ele?

Quantas vezes também nós sentimos uma sede de permanecer em adoração, como quando o louvamos no fundo do nosso coração, no silêncio dos sacrários, onde é viva a sua presença, e na festiva assembléia eucarística!

“Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto.”

Mas o que significa “adorar” a Deus? É uma atitude que só podemos ter para com Ele.
Adorar significa dizer a Deus: “Tu és tudo”, ou seja: “És aquele que é”; e eu tenho o privilégio imenso do dom da vida para reconhecer isto.
Adorar significa também acrescentar “eu sou nada”, dizendo isso não só com as palavras: pois, para adorar a Deus, precisamos anular a nós mesmos e fazer com que Ele triunfe em nós e no mundo. Isso implica uma constante demolição dos falsos ídolos que somos tentados a construir na nossa vida.
No entanto, a atitude mais segura para chegar à proclamação existencial do nada que somos e do tudo que é Deus é inteiramente positiva: para anular os nossos pensamentos, basta pensar em Deus e ter os seus pensamentos, que nos são revelados pelo Evangelho; para anular a nossa vontade, basta cumprir a sua vontade que nos é indicada no momento presente; para anular os nossos afetos desordenados, basta ter no coração o amor para com Ele e amar os nossos próximos, compartilhando seus anseios, sofrimentos, problemas, alegrias.
Se formos sempre “amor”, seremos, sem perceber, “nada” para nós mesmos. E quando vivemos o nosso nada, afirmamos com a nossa vida a superioridade de Deus, o fato de Ele ser tudo, abrindo-nos assim à verdadeira adoração de Deus.
“Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto.”


Muitos anos atrás, quando descobrimos que adorar Deus significava proclamar o tudo Dele sobre o nosso nada, compusemos uma canção que dizia: “Se lá no céu se apagam as estrelas, / Se cada dia morre, / Se no mar a onda se perde e não retorna / É pra tua glória. / A natureza canta a ti: / Tudo és! / E cada coisa diz a si: / Nada sou!”.
Anulando-nos por amor encontrávamos como resultado o nosso nada preenchido pelo Tudo, Deus, que entrava no nosso coração.

Chiara Lubich

Fonte: Revista Cidade Nova – Fevereiro de 2005